domingo, 5 de abril de 2015

Blogagem Coletiva: Responda uma questão a um iniciante.

Olá pessoal. Topei o desafio do FerramentasBlog de responder as dúvidas de um iniciante. Bem, o desafio, nesse caso, foi encontrar uma dúvida que eu não tivesse aqui no blog ao menos um começo de resposta.
Para resolver essa questão, durante dois dias, deixei no meu perfil pessoal no Facebook e na página do Conversas Cartomânticas uma questão: 
Se você pudesse fazer uma pergunta sobre o trabalho de um cartomante, qual pergunta seria?
[sim, vale qualquer pergunta.]
Curioso que o pessoal da página não comentou. Gente, vamos participar mais :) Então, transcrevo aqui a conversa que tive com os queridos que decidiram responder. 
Por uma questão de respeito, mantive apenas o primeiro nome.

Marcia O que te dá mais prazer no seu trabalho?
 Hmmm... Excelente pergunta, Marcia. Claro que é prazeroso acertar as previsões ou então orientar sobre o melhor caminho que o consulente pode trilhar dentre as opções que tem. Mas para mim, particularmente, o maior prazer é o grau de acerto que as cartas me oferecem sem que eu saiba nada da vida do cliente que me procura. São as cartas, e não uma leitura pessoal minha. Eu só interpreto, e com isso alcanço o objetivo - o cliente ser devidamente orientado.

Lembrando que além de interpretar você faz todo um trabalho de apoio psicológico, que eu acho fundamental.
As previsões podem ser duras, mas nós somos de carne. Eu considero precioso lembrar disso quando vejo algo difícil. Saber dizer, saber como dizer, saber o que dizer: isso diferencia o trabalho bom e sério dos demais. O que o baralho apresenta pode ser interpretado por qualquer entendedor do assunto, mas COMO interpretar é que dá o nível de profissionalismo necessário para algo tão delicado quanto auxiliar em decisões humanas. 

Ivana  Eu perguntaria: Por que você acha importante esse trabalho?
Ivana, é importante, e eu iria além, é fundamental o estudo da Cartomancia - e das demais mancias - porque estão ligadas a aspectos de nossa psique que ainda não estão devidamente explicados. Não temos ainda uma fórmula pronta de COMO funciona a divinação de fato, sabemos que funciona pelo número de acertos recorrentes. Mas não sabemos os mecanismos. 
Dessa forma, acho necessário que esse trabalho se mantenha pelo efeito psicológico - a liberdade que o cliente possui de não dizer nada e ainda assim obter conforto - pelo efeito social - a figura, a imagem do cartomante muda, o efeito da consulta não - e pela necessidade científica de entendimento do processo psíquico que desencadeia a previsão com o grau de acuro que podemos obter.

E claro, acho importante, num nível eminentemente pessoal, porque tudo aquilo que a gente ama é importante.

Felipe De oraculista pra oraculista: como você lida com as mensagens desconexas individuais que cada carta traz enquanto precisa unir todas elas e interpretar o sentido do conjunto?
Felipe, eu consigo dividir sua questão em dois pontos. O primeiro diz respeito a quando não sabemos a motivação do consulente. O segundo, quando respondemos uma questão específica.
No primeiro caso, eu sigo a leitura. As informações vão se encaixando enquanto o jogo corre. Ao final, sempre faço uma recapitulação de tudo que conversamos, o que permite que eu apare as arestas interpretativas, fechando o jogo com certa homogeneidade. No segundo caso, quando a questão é específica, eu utilizo os significados de cada carta para entender aonde é que está a pergunta correta. Por vezes, as pessoas escondem informações importantes para que a interpretação acerte o alvo. E essas informações não oferecidas aparecem nas cartas que não fazem sentido. 

Um terceiro caso, e acho que foi isso que você perguntou na verdade, é quando temos cartas de contexto diferente em um mesmo padrão de leitura, e juntas não fazem sentido (se eu entendi bem). Nesse caso, eu tiro mais cartas, sem problema. A resposta só está pronta quando todas as cartas fazem sentido para o leitor. É como ler uma página de livro, somente; ao chegar ao final, se não tivermos um ponto final que encerre o assunto, viramos a página e buscamos mais informações.

Ygor Quanto custa?
Ygor, totalmente variável. Embora a profissão esteja regulamentada no Ministério do Trabalho, ainda somos profissionais liberais e prestadores de serviço. E aí, a questão do preço é como com um mecânico: você tem que ter alguma referência do trabalho do profissional para contratá-lo (tem site? Blog? Tem uma sala de atendimento? Atende em casa?), e avaliar seu preço em função do tempo de experiência (quanto menos tempo de formação, pela lógica, mais barato o jogo), habilidade e feedbacks obtidos (o famoso "boca a boca"). Assim como com um mecânico, terão bons cartomantes formados em escolas (eu mesmo dou aula no Espaço Merkaba, e tenho orgulho dos alunos que formei e formo), terão bons cartomantes formados na escola da Vida (eu sou tarólogo autodidata - li MUITOS livros, treinei MUITO, antes de atender profissionalmente). 
Então, é difícil precisar quanto custa uma boa consulta. Varia da empatia que você encontrar com o profissional, da confiança entre vocês e principalmente da habilidade dele de extrair do processo de leitura as informações mais precisas para sua orientação. 
A primeira leitura, ainda assim, sempre será um teste. Bom cartomante é aquele para quem os clientes voltam.

Raphael Adorei a iniciativa de pergunta-resposta. Percebo que a maioria dos profissionais holísticos conciliam a prática com a qual trabalham com algum outro emprego/carreira. Isso pode ser positivo, pois quanto mais polivalente se for no século XXI, mais sensibilidade para entender facetas da vida humana. Você acha que é possível, no Brasil, viver apenas da prática tearapêutica? Seja Tarot, Lenormand, Astrologia, etc?
Oi Raphael. Essa questão foi levantada no Fórum Nacional de Tarô, e o mais recente webnário da Karla Souza, do Falando Lenormandês, também falou sobre isso. Bacana podermos trazer isso para nossa conversa agora.
Eu pertenço à categoria dos profissionais que se desdobram em mais de uma profissão simultaneamente. Acredito que meu perfil se enquadra nessa possibilidade, mas nada me impediria de me tornar empreendedor na área esotérica daqui a algum tempo.
Perceba a palavra que usei deliberadamente: empreendedor. O que considero um limite a ser transposto nas práticas holísticas e esotéricas aqui no Brasil é a visão errônea de que cartomancia e similares são "serviços espirituais", apenas. É muito mais do que isso.
Vejo a questão como vejo a história recente do Poker: de hobby para gentlemen, virou esporte, virou carreira, virou prática corrente, agremiou novos participantes.
E não deixou de ser hobby.
Portanto, mais e mais pessoas que se dedicarem à cartomancia como profissão permitirão que revejamos nossos conceitos quanto aos limites da prática, sem, no entanto, tirarmos seu status de espiritual. Existem caminhos, mas ainda precisam ser trilhados. Eu não tenho elementos pessoais para lhe dizer se hoje é possível viver apenas da cartomancia, embora conheça profissionais que afirmem ser possível e vivam somente deste trabalho. Mas tenho plena certeza de que essa será uma realidade em uns cinco anos, mais ou menos. A profissão se estabelecerá adequadamente, com a estabilidade que não teve no boom da década de noventa.

Penso que em se tratando de uma profissão autônoma em que as pessoas procuram o profissional a cada seis meses ou a cada ano, fica difícil viver apenas disso, principalmente se mirando em um padrão social médio/alto. Contudo, não duvido que os facilitadores dessa área já constituem uma profissão que está sendo mais valorizada a cada dia. Há, no entanto, o preconceito contra as cartas, versus a valorização da Astrologia como algo mais sério. Talvez por essa ter 14 mil anos, enquanto as cartas vêm do século XVII/ XVIII. Sem falar nos meios sociais. Na zona sul do Rio de Janeiro, as ciências ocultas são mais prestigiadas do que na zona norte do Rio, onde as pessoas preferem ir aos centros de Umbanda/Candomblé, o que gera essa visão de ser um "serviço espiritual".
É por isso, Raphael, que precisamos organizar direito nossa carteira de clientes, para que as consultas sejam mais ou menos "homogêneas" durante o ano. 
Para que todo mundo saia satisfeito.


Adriana Achei estranho algum tempo atrás uma pessoa tirar as cartas para um amigo meu, para ver o que estava acontecendo com ele... ou melhor, bisbilhotando sua vida e de pessoas ligadas à ele. O detalhe é que meu amigo não havia autorizado esta pessoa a fazer isso. Como me ensinaram que as cartas só podem ser tiradas quando a pessoa em questão autoriza isto, te pergunto se é possível um cartomante vasculhar a vida de outra pessoa sem permissão e obter respostas confiáveis. Como você vê isso?
Essa questão é super séria, Adriana. Super. Eu não tenho uma resposta satisfatória a isso, mas tenho uma ética de trabalho que tem me atendido favoravelmente. 
Certa vez, estava eu com meu baralho cigano, velho de guerra e de paz, atendendo uma moça que era amante, ou amásia, não me lembro bem, de um político importante na região. Todas as perguntas dela eram referentes à esposa do seu amado, e claro, sobre ele também. Até aí, tudo bem: enquanto as respostas atingem diretamente o questionador, por mim, tudo bem. Em certo momento, seu foco voltou-se aos pensamentos da mulher. Ao seu desejo de futuro, como ela via o marido etc. Percebe que aí, ao invés de querer ver seu próprio panorama, ela quis explorar a psique da sua rival? Nesse momento eu lhe expliquei isso, ela disse que queria a resposta mesmo assim, eu lhe respondi que seria por sua conta e risco. 
O baralho espalhou-se no chão na primeira embaralhada. Logicamente, encerrei a consulta na hora.
Desde então, só questiono o baralho quando reconheço legitimidade na questão formulada - nem que para isso eu tenha que auxiliar o cliente a formular a pergunta.

Mas essa é minha experiência pessoal. Um estudo de caso, apenas. Não está ainda em nível de ser considerada regra. 
Como falei na resposta para a Ivana, temos que experimentar o oráculo em seu limite. Vermos até onde ele pode ir com acuro. Contudo, graças aos Deuses, temos a ética para nos pautarmos e irmos mais devagar em determinados passos, como por exemplo, nessa exploração. 
Para mim, a regra é: só questiono o baralho a respeito de outra pessoa se isso afetar o consulente diretamente.

Certo Emanuel, concordo com você! A ética é imprescindível. No caso de sua cliente ela possuía uma ligação forte com a pessoa em questão e na verdade ela poderia perguntar sobre ele até certo ponto, o ponto que lhe diz respeito diretamente. Já no caso que mencionei, a garota nem sequer conhece meu amigo pessoalmente e minha dúvida surgiu pelo fato dela ter tirado as cartas para saber mais sobre ele sem a permissão dele. E as cartas realmente lhe responderam corretamente...
Então fiquei um pouco surpresa, porque se for assim, esta pessoa poderia saber sobre a vida de qualquer pessoa...
Achei isso muito estranho.
Bem, Adriana, aqui temos um ponto curioso e espinhento da cartomancia. Perceba que o que a moça fez é o mesmo que muitos profissionais da nossa área fazem no fim do ano em relação a famosos (e sim, já fiz isso também): tentar prever o ano de alguém que não se dispôs a isso, apenas para sanar a curiosidade alheia (e a própria).
Contudo, como ela saberia que estava certa sem que alguém a orientasse nesse sentido? O grande risco de fazer uma coisa dessas - e estamos falando para além da ética agora - é que você não tem nenhum ponto real para se apoiar. A moça estava certa, ok, porque você tinha como referenciar isso. Mas e se não houvesse você nessa hora? 
Eu não coloco limites para a abrangência de uma leitura, absolutamente. Não temos ainda um rigor científico que nos permita dizer "isso, aquilo e aquilo outro as mancias não podem fazer". Só nos resta a ética... e a observação criteriosa de casos como esse.
Poder saber sobre a vida de qualquer pessoa, podemos. Devemos? Fico com esse espinho cravado na unha.


Rodrigo Quando sair com o zap rola uma piscadinha ?
Rodrigo, na verdade não. Mas se a questão é de amor e sai o Dois de Copas, ou de dinheiro e sai o Nove ou Dez de Ouros, sou obrigado a entregar a previsão com um mega sorriso. :)

Nem preciso dizer que essa é uma postagem ABERTA A NOVAS INSERÇÕES. Estou sempre à disposição em caso de dúvidas. 
Abraços a todos.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

IV Fórum de Tarô: Eu fui!

Com o objetivo de compartilhar experiências sobre a atividade do tarólogo, o fórum reunirá aqueles que anseiam conhecer melhor os caminhos do tarô em nosso país. O diferencial desse evento está na abordagem do tarólogo (profissional, estudante ou entusiasta) sobre sua prática no uso do tarô como ferramenta de trabalho ou de autoconhecimento.

Olá pessoal. Eu esperei passarem-se alguns dias para poder escrever com tranquilidade sobre o IV – e último – Fórum Nacional de Tarô. Organizado por Nei Naiff, tive a oportunidade de participar do II, no Rio de Janeiro, como ouvinte e do III, em Belo Horizonte, como expositor. Nesse IV, fechando um ciclo, tive a oportunidade de ir além de uma participação. Eu realmente me envolvi no evento. Posso dizer que fui tocado. E mais de uma vez.
Portanto, minhas primeiras impressões sobre o evento foram predominantemente pessoais, diretamente ligadas à minha prática e, mais que isso, à minha vocação como cartomante. Agora, falemos sobre como a questão profissional foi debatida nesse espaço. Se você não for cartomante, talvez esse texto lhe soe enfadonho (espero que não), mas é necessário pontuarmos a questão profissional para que você, consultante, também possa escolher bem seu cartomante. 
Em três mesas, foram discutidos aspectos da prática que dialogam muito com o que vimos no Tarolog – algo fundamental, não podemos perder o foco do aspecto profissional online. Importante frisar essa linha de raciocínio que se segue, pois dela obteremos os referenciais para a prática nos próximos anos. Aonde queremos chegar como profissionais de cartomancia?
Nos três temas abordados – Caminhos do Tarô no Brasil, Consultas online e lei trabalhista e o Tarô na internet e na televisão – pode-se notar o peso que o atendimento online tem obtido frente o atendimento presencial. Como todo terreno desconhecido, há que se buscar ferramentas para trilhá-lo com segurança, e percebi nesse ponto a reflexão que trago para nós, a partir do evento.


Alguns pontos saltaram aos olhos na primeira Mesa. Constantino, nosso querido do Clube do Tarô, dispôs sobre as formas de se aprender Tarô (grifo essa palavra porque tenho questionado muito seus efeitos no contexto de ensino que temos na área. Há que se rever em muitos aspectos, ou melhor, que se esclarecer pontos de vista sobre o processo de aprendizagem.) Pode-se ler livros sobre o assunto. Fazer cursos, presencialmente ou online. Não se pode, porém, menosprezar o peso da transmissão oral (seja a avó, a benzedeira, a cartomante favorita, tia...) que é um conhecimento EXCLUSIVO e baliza-se na experiência, não na teoria compilada. Entenda-se: não existe maior ou menos valor em uma ou em outra forma de aprendizagem, senão pela eficácia. Funciona? Sigamos.

Geraldo Spacassassi demonstrou seu maior interesse em aulas particulares que em grupos, pela atenção irrestrita dada ao aluno. Sobretudo, porque ao dar aulas particulares, o professor pode explorar a bagagem prévia do aluno em auxílio ao conteúdo estudado. Uma das coisas que o diverte é o susto que os aspirantes levam ao ver o tamanho da bibliografia a ser lida. Seu foco se dá na trilogia de Nei Naiff somado ao Tarô Mitológico, com ênfase na prática [que consolida a teoria, naturalmente]. Sente dificuldades no processo virtual pela questão da empatia e do acolhimento – o cenário virtual tem outros códigos para efetivação da empatia. 
Nadir Villardo propôs que o estudo EAD seja tão eficaz em termos de aprendizagem quando o ensino presencial, tendo como diferencial a disciplina exigida nos cursos online. Aos meus olhos, falta um pouco da presença própria dos cursos presenciais, mas é meu ponto de vista. Citando as empresas, onde o EAD tem se fortalecido substancialmente, Nadir nos mostra o quanto esta área está em franco crescimento, o que nos leva a questionar o quanto estamos atentos às mudanças do mercado. Em contraponto, Geraldo Spacassassi nos diz que a prática do EAD em empresas se mostra um sucesso pela influência da hierarquia e do poder – é necessário que sejam feitos os cursos, para o desenvolvimento do profissional na empresa; EAD de cartomancia é voltado para o desejo pessoal, e cabe ao professor seduzir o aluno com o conteúdo e angariá-lo para a prática. Esse é um ponto que acredito merecer maior atenção, e estudos de caso coesos: qual é o resultado prático do EAD de Cartomancia? Não posso negar o orgulho que tenho daqueles que fizeram cursos comigo online. Mas em geral, qual é o resultado que os profissionais obtêm? 
Luiza Papaleo, de forma brilhante, expôs o que leva os alunos a procurarem o Centro Cultural Esotérico. A busca por uma nova carreira após a aposentadoria é uma das possibilidades diretas. Em relação a isso, Simone Merino diz que não é o caso direto, já que a maior parte das pessoas busca “se encontrar” – um caso muito semelhante ao que vemos em cursos de Humanas, sobretudo Psicologia: uma busca por si mesmo no esforço de auxiliar os outros. A questão financeira fica em segundo plano, o objetivo é a aprendizagem, de fato. É possível construir uma carreira profissional com cartomancia e alcançar o autoconhecimento – uma das teclas mais tocadas neste Fórum foi de que Cartomancia é uma profissão como qualquer outra. Como tal, deve ter seu plano de carreira, a organização pessoal para o trabalho, e todas as demais coisas relativas a uma profissão, mas falaremos sobre isso adiante.
Contudo, existem alguns pontos ásperos nessa jornada: preconceitos acerca de desenvolvimento de dons, sobretudo associar o processo de desenvolvimento pessoal à religião que se professa; evidentemente, os dons se desenvolvem com a prática oracular, mas não necessariamente o desejo desse desenvolvimento se coaduna com a efetivação do mesmo. Quanto mais se pratica, mais se apura, como em qualquer outra profissão, não necessariamente as de cunho esotérico-espiritualista.
[Fiquei com O Monge e o Executivo na cabeça ao pensar nisso. Vê-se que o sucesso nessa área é algo interdisciplinar.]
Outra questão que chama muito a atenção é a questão tempo x efetividade. Qual é a carga horária que torna um curso confiável? O quão acelerados estão os alunos na busca do conhecimento... ou na busca de um diploma? Qual é o resultado esperado de um curso de Tarô?
É fundamental que o profissional dê valor ao real sentido das palavras. Acuro interpretativo, ir direto ao ponto, acertar no osso. 
Previsão e autoconhecimento caminham juntos. Indissociavelmente - pelo menos na prática.

A ética – ou falta dela – é comum a todas as profissões, não somente a cartomancia. Existe um preconceito perpetrado pelos próprios cartomantes que, tateando no escuro, julgam o que é certo e errado na profissão – na verdade, rotulando mais pessoas que atitudes. 
Particularmente, eu tenho uma série de questões cuja resposta não me é clara. Como manter uma consulta de duas, três horas? Eu, Emanuel, faço tudo o que preciso fazer dentro do que considero correto em uma hora. Isso não tem a intenção de soar maniqueísta, muito pelo contrário: se você faz um excelente trabalho e com isso demanda mais tempo, qual é o problema? Particularmente, uma hora me é o suficiente [com uma perspectiva “elástica”: algumas consultas duram mais, outras menos, em função daquilo que o consulente busca]. Acho difícil explorar um oráculo como o baralho sem me tornar redundante, depois de uma hora de consulta. Acontece, mas é raro, de o assunto render. 
Levemos em consideração, também, que eu trabalho sem anamnese. Não desejo saber o que o consulente traz consigo. Quero saber, sim, o que o baralho tem a lhe dizer. Após essa primeira leitura “no escuro”, partimos para a leitura conjunta, onde eu e o consulente conversamos sobre os prognósticos, acertando as rebarbas da interpretação e sanando possíveis dúvidas. Depois, sim, perguntas específicas. Suponho que, se eu me dispusesse a ouvir o consulente antes de iniciar o jogo, o tempo de consulta seria exponencialmente maior. As pessoas, em geral, precisam ser ouvidas – muitas vão a um cartomante para sanar essa necessidade. Contudo, minha prerrogativa para ouvir é ler primeiro, observar o cenário a partir do que as cartas apresentam. Problemas materiais – soluções materiais.

A imagem do cartomante, pelo menos por ora, está indissociavelmente ligada à do sensitivo, do médium. Não usar aspectos mediúnicos na leitura não significa que o mediúnico não tenha valor. O Tarô – ou qualquer baralho – é um suporte para que dons mediúnicos possam se manifestar com tranquilidade para o operador oferecer sua vidência. Constantino, sempre compreensivo, sempre genial, num momento em que, a passos largos e foice afiada, tenta-se cortar da prática oracular qualquer aspecto que fuja ao cânone. 
Esquece-se com certa facilidade de onde viemos. Somos marginais, por vivermos à margem, não por sermos criminosos. Perder essa marginalidade, esse reconhecimento que estamos fora do senso comum, embora tenhamos tanto referencial compartilhado, é engessar aquilo que naturalmente é fluido e selvagem. O que torna a prática tão efetiva é o quanto de afluentes chegam no mesmo rio: sem certos e errados, mas certamente com melhores ou piores caminhos. Em minha prática solitária, em meu aprendizado autodidata, tive a sorte de ler o Tarô Mitológico do avesso, o que me marcou para sempre. Leio outros livros, me referencio em outros trabalhos, mas reconheço, nas entrelinhas já escritas, o quanto esse livro, que já está em sua terceira editora e com edições a perder de vista (só eu tenho três), é influente na construção do pensamento cartomântico no Brasil.


A prova da competência é a duração no mercado. Só continua quem é bom. O mercado é que recusa o tarólogo, postula Nei Naiff. Não adianta dizer que é. É preciso provar que é. “O perigo para o tarólogo é se achar e não ser”, postula dona Yedda Paranhos. Noventa e três anos de sabedoria, mais anos de cartomancia do que eu tenho de vida. “Bom tarólogo não é aquele que tem muitos clientes. Bom tarólogo é aquele para o qual os clientes voltam.” Afinal de contas, o boca a boca continua sendo o melhor marketing. Atenção, portanto, ao que seu cartomante diz sobre si e sobre os outros – o que diz sobre os outros fala muito mais sobre ele, do que sobre os outros.
Bom ouvir a voz de quem sabe o que diz.

Se eu me sentir chamado a oferecer cursos, como devo proceder?
Conforme o Constantino, experimentar com pouca gente. É normal sentir medo nessa fase, é difícil e assustador estar diante de um conhecimento tão vasto. Sinal de espírito forte, de ausência de presunção. Luiza Papaleo diz aconselha sistematizar. Ter claros o começo, o meio e o fim do curso e, principalmente, saber que o curso resume, mas não esgota.


A segunda mesa propôs a discussão sobre as consultas online e a lei trabalhista. 
Há quem não queira assumir-se publicamente como tarólogo, por diversas razões pessoais. 
Edu Scarfon considera necessário expor a imagem pessoal, pois isso torna a pessoa mais cuidadosa com o que diz – algo muito correto num cenário em que temos que desmistificar a imagem da profissão enquanto simultaneamente a nossa imagem se mistifica. Contudo, como bem colocou a Monica Delgado, o tarólogo pode não ter a opção de colocar sua imagem, em função da política de funcionamento do site. Uma questão que deve ser revista é como que o cliente é visto nesse cenário em que a matéria bruta [como diz Nei Naiff], o tarólogo, é independente do empregador. Há a questão da falta de ética profissional do tarólogo, que, ao angariar clientes em um site passa a atendê-los fora da plataforma para obter mais lucro, desvalorizando o site e tomando para si todas as vantagens oriundas do marketing feito pelo dono do site. Assim como, na contramão dessa perspectiva, há os donos de site que, ao impedirem o cartomante de usar sua própria imagem no atendimento, impedem também que ele construa uma história. 
Contudo, mesmo sendo prejudicial para a construção de um currículo, usar o avatar pode ser libertador. Com a facilidade de encontrarmos pessoas nas redes sociais, é realmente tranquilizador não ser possível ser encontrado às duas da manhã por alguém desesperado por uma consulta. (Acreditem, isso já aconteceu comigo. A referida pessoa dizia querer se matar e coisas do tipo. Imagine acordar de susto às duas da manhã com o celular acusando chegada de mensagens e ler uma coisa despropositada dessas.)
A motivação de consultar-se em um site torna os clientes conhecedores do funcionamento da leitura. As perguntas que fazem na contratação do serviço são: esse cartomante tem retorno? Qual oráculo ele utiliza?
Monica Buonfiglio fala sobre as consultas por Skype – suas favoritas. Ela quer ver quem está do outro lado, quer ouvir sua voz, quer falar, quer mostrar-se. Tudo isso no conforto e na segurança da sua casa. De fato, essa evolução é algo fantástico: estarmos em um ponto do globo conectados com outra pessoa em qualquer outro lugar do globo. É claro, existem os problemas específicos de conexão próprios dessa interface. Mas isso é assunto para outra conversa. 
Essa mesa, em especial, me deixou cheio de questionamentos – o que é ótimo, já reparou como se reflete pouco sobre a prática enquanto ainda se gastam toneladas de neurônios para rebatermos os mesmos problemas? Vamos dar um pouquinho mais de peso para a questão profissional, para a carreira, pois a questão de missão pessoal e espiritualidade já estão sendo visitadas a contento, já há algum tempo. Os blogs e sites são espaços informativos, e podemos ir além de significados e estudos de caso – uma proposta que quem segue o Conversas Cartomânticas já vê na prática há algum tempo. 
E então, temos Christiane Carlier expondo de forma brilhante uma questão que é como a roupa nova do Imperador: esteve aí o tempo todo, ninguém percebeu. Cartomante é um profissional como qualquer outro. Qualquer outro mesmo.
Isso inclui estarmos sujeitos às mesmas leis que norteiam todos os outros trabalhos. 
Não estou em condições ainda de oferecer conteúdo sobre esse assunto – eu não sou advogado e acabo de iniciar minhas reflexões a respeito. Temos no site do Nei Naiff informações acerca da parte profissional da Cartomancia. Mas, assim como estou fazendo, sugiro que você, leitor e profissional, se oriente com um advogado sobre seus direitos e deveres como empregado ou autônomo na nossa área. Pois, como bem postulou a Chris, a primeira dignidade é buscar a lei.


A terceira mesa teve por tema o tarô na internet e na televisão.
Infelizmente, a Pietra Di Chiaro Luna não pode estar no evento, por razões pessoais. Eu, que já estava ansioso por revê-la, fiquei sentido – lembra que eventos são para reencontros? Queria muito ouvir o que ela tinha a dizer. Afortunadamente, seu lugar foi muito bem substituído por Ivana Mihanovich – uma querida que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente no evento. Sim, eventos são para encontros, também. :) Fora a ausência da Pietra, essa Mesa fechou muito bem o evento. 
É bacana perceber, como a Kelma Mazziero disse, que foi a internet que nos colocou hoje na possibilidade de vivermos um evento como o Fórum, pois é verdade! Eu confesso que um dos motivos pelos quais eu vou a eventos de Cartomancia é para abraçar de verdade quem eu já passei a admirar virtualmente. É sempre um prazer conversar um pouco, cartear, obter feedbacks, tudo isso em tão pouco tempo – o que é um dia frente os vinte anos de amizade que uniram Kelma Mazziero e Ivana Mihanovich (duas queridas, duas amadas, duas excelentes profissionais e pensadoras de nossa arte) num mesmo lugar?
O blog possui um dinamismo que o site não possui, informa Leo Chioda. O blog é um diário, é um espaço dinâmico, onde nem sempre o melhor está exposto – o que se expõe no blog é o mais recente texto, não o mais importante. Por isso, cabe-nos, como blogueiros, manter o blog sempre atualizado, sempre referencial - não só para os outros, mas para a gente mesmo. A gente se vê no que escreve ali?
Claro que nem sempre isso é possível com a aceleração do tempo que vivemos (se você chegou até aqui na leitura, dê uma olhada em quantas vezes você usou a barra de rolagem. Isso nunca aconteceria numa rede social, por exemplo. E, com essa conversa franca que estamos tendo, esse texto não seria adequado a um site. Estamos em casa, no lugar certo.)
Dessa forma, podemos colocar os textos dentro dos seguintes “pacotinhos”:
Site: textos estáveis, que referenciem a prática pessoal por muito tempo.
Blog: textos dinâmicos, estudos de caso, processos cronológicos.
Redes sociais: textos leves, diretos, específicos e curtos. Imagens, muitas imagens.
Esse também é um ponto a se estudar mais. Reveja seu espaço de apresentação do seu trabalho. Tome consciência da responsabilidade pelo que você diz. E fica aqui um puxão de orelha, com carinho sim, mas com especificidade: por favor, não fale mal dos seus clientes complicados em redes sociais. Isso é feio, muito feio. Toda dúvida merece uma resposta, e as pessoas vem ao nosso encontro em busca de respostas. A gente ajuda pessoas, resume Ivana Mihanovich. Ajuda pessoas a tomarem decisões. O que merece exposição são os estudos de caso, não pessoas com dificuldades. 
Os parceiros certos sempre se encontram, de qualquer forma, independentemente da interface.

E que encantamento em ouvir o André Mantovanni! Leve, sensível, claro em sua exposição, baseada em anos de televisão. André fala a quem precisa, a quem o assiste, trabalha sua linguagem em função disso, sem perder a seriedade daquilo que está ali, nas cartas à sua frente. Voltamos a um ponto fundamental: como é importante ter vocabulário! Em uma consulta – sobretudo a desafiadora consulta ao vivo, frente às câmeras – não se pode titubear. E, mesmo com leveza, é possível SIM abordar uma Torre, uma Morte, um Diabo. 


Da mesma forma, que honra conhecer a Cathya Gaya! Assim como o Edu, ambos deram a cara a bater, colocando toda a sua carreira e formação em um desafio que, justamente por ser o primeiro, ninguém sabia exatamente como iria acontecer. E que sucesso! Agradeço enormemente os tabus que foram quebrados por seu excelente trabalho no programa Paranormais. 
Numa pergunta muito preciosa, Kelma resumiu a questão que deveria ser nosso norte como profissionais: o que o cliente de cartomancia quer?
Felicidade. Que o cartomante resolva os problemas, ou ao menos minimize o sofrimento (convenhamos, ninguém procura um cartomante porque está feliz. Grosso modo, ou está curioso ou está com problemas). Receitas prontas. Diretrizes. É necessário atentar-se na resposta para manter o cliente como protagonista, para que ele exercite seu livre-arbítrio frente o destino que ora se apresenta. É fundamental que sejamos diretos. É muito fácil diluir-se em meio às cartas. Bom cartomante consegue sintetizar rapidamente, e a partir da síntese buscar elementos que esclareçam os pontos que o cliente apresenta. 
Lembra o que disse sobre aceitar as questões, todas elas? São as perguntas difíceis que enobrecem nosso trabalho. É assim que crescemos. A nossa participante online – pena não ter podido estar presencialmente, mas que feliz ter a Zoe de Camaris mesmo online! – falou-nos algo precioso sobre isso. É difícil sim a gente responder uma questão “solta”, pois a vida é uma só e os assuntos se interligam. Por vezes, o que está visível para o cliente é uma questão afetiva, mas o que está nas profundezas do problema são suas questões profissionais. Ter contexto nos permite dar uma resposta com muito mais acuro e profundidade. Como lidar com isso diretamente? Eu tenho um método que tem funcionado bastante, publico em breve. Afinal de contas, eu não trabalho com perguntas. Primeiro eu jogo, depois nós conversamos. Mas na hora das perguntas, quanto mais específica a pergunta, mais específica a resposta, dita a regra. Se existem exceções, eu desconheço. Nós mexemos com segredos, como bem disse a Kelma. E não é fácil lidar sozinho com segredos. Talvez por isso seja tão complicado questionar diretamente, sem haver confiança. Como bem disse a Zoe, podemos sim fazer o consulente chegar à melhor pergunta. Podemos orientá-lo não só a encontrar o melhor caminho, como também a questionar adequadamente o seu momento. Direcionamento não está ligado apenas à meta, mas como se chega lá.
E questões que acho pertinentes serem tatuadas. Existe sim espaço para todo mundo. O céu está repleto de estrelas, mas nenhuma se toca.
O mercado te escolhe.

Queridos, façamos por onde. Façamos nosso melhor.
Como puderam ver, eu deixei propositadamente um monte de lacunas. Não tenho respostas para todas; vamos pensar juntos, vamos seguir em frente com essas questões.
O caminho se constrói do que é dito, sim, mas do que é vivido, mais.
Abraços a todos, até o próximo evento.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Dos usos do Lenormand: seres espirituais e métodos.

Olá pessoal. Em nossa blogagem coletiva, tivemos uma pequena lacuna, que dá muito pano pra manga em conversas diversas: existem mesmo analogias entre os seres espirituais e as cartas do Lenormand? Se existem, funcionam? Se funcionam, como posso aproveitá-las em minhas leituras?

Embora a maior parte das cartas do Petit Lenormand sejam consensuais em sua atribuição simbólica, algumas causam certo estranhamento quando localizamos abordagens específicas. É o caso do Livro, que para mim significa o lado profissional; todos os demais significados (segredo, mistério, guarda, informação mais acurada) são consenso, mas profissão não. Há quem veja profissão na Foice – e as pinturas do século XIX, sobretudo do Realismo europeu, estão aí para nos explicar por que – e já ouvi dizer que até mesmo a Âncora possa ser o campo profissional do consulente. 
Quem está certo?
Aquele que faz o significado funcionar em sua leitura. Se funciona, está correto. Não nos preocupemos com teorias se, na prática, existe efetividade.
Pois bem. Desde o trabalho de Katja Bastos e Cesar Bastos – o Tarot Cigano – temos referências bibliográficas à associação dos Orixás e alguns encantados às cartas do Petit Lenormand. No Tarot Cigano, em especial, a referência é direta e iconograficamente representada. Sabemos, porém, que esse uso é anterior à edição do baralho, sendo utilizado em terreiros com certa frequência. Era essa a linguagem disponível para que a metáfora se tornasse previsão.
Temos então um uso, um costume e uma referência com pelo menos três décadas para a devida contraposição: é necessário conhecer os Orixás e os encantados para ser um bom leitor do Petit Lenormand?
Não, não é. Mas é um estudo que funciona. Eu apliquei por muitos anos, com excelentes resultados. Não posso negar a efetividade do método, mas não considero-o essencial no entendimento das cartas. Saber que um significado existe não faz com que esse significado se aplique. Mas abre a mente e dá contexto, garantindo uma leitura mais clara sobretudo da iconografia produzida com essa intenção.
Com o recente boom do Lenormand – como se ele tivesse sido descoberto agora! – a literatura referente a ele engatinha em busca de respostas e questiona tudo o que foi produzido até então. Essencial que isso aconteça, para que possamos entender o mercado artístico que se segue a ele assim como justificar o processo artístico anterior. Entendendo a iconografia, passamos a entender minimamente a prática – as cartas Lenormand são de caráter mnemônico muito mais que alegórico, ou seja, o que as cartas significam deve estar explícito e a metáfora implícita no conhecimento do operador da leitura.
Vemos aí um uso exagerado da palavra tradicional. O que é tradicional? Aquilo que é perpetuado ou aquilo que é “descoberto”? O Petit Lenormand funciona menos se chamado de Baralho Cigano? Os significados desenvolvidos para a iconografia produzida no Brasil deixaram de fazer sentido? Tradicional, como conceito, se opõe a moderno ou se opõe a obsoleto?
Desta feita, o livreto que acompanha a maior parte dos baralhos que compramos em casas de artigos religiosos está agora alçado ao cargo de fonte referencial, não mais fonte primária. Novas interpretações para um texto razoavelmente obscuro trazem à luz possibilidades para um método outrora obsoleto. Ainda bem! Quando eu adquiri meu primeiro Petit Lenormand – o Baralho Para Ver a Sorte – fui aconselhado a rasgar o livreto e usar a intuição. 
Não fiz nem uma coisa, nem outra: guardei o livreto e estudei a fundo as imagens e suas inter-relações. Na época, sobretudo pela escassa literatura do ~longínquo~ ano de 2002, o livreto soava pouco, raso, pequeno para aquilo que a prática me mostrava.
Doze anos depois, vemos que existe muito naquele texto a ser interpretado. Muito a ser visto, revisto, revisitado, explorado e utilizado adequadamente na prática. Mas foi necessário muito tempo para que isso se delineasse.
Dessa forma, não considero correto deixarmos todo o tempo em que estudamos as imagens e aplicamos seus significados com acuro para trás, devido à pesquisa histórica ter nos dados novos referenciais de leitura às fontes primárias. Deveríamos sim questionarmos como é que, sem tais fontes, o baralho mostrou tanto acuro. Essa questão nos aproxima do processo de memória, esquecimento e insight que ocorrem em uma leitura oracular: não são todos os significados que saltam aos olhos, apenas os necessários. Por que isso? Como isso se opera em nossa psique? Como o uso e o costume podem sedimentar significados a ponto de termos o grau de precisão que temos com nossas cartas?
Usou-se, para diferenciar as abordagens, os termos Escola Europeia e Escola Brasileira – Lenormand ocupando o espaço que outrora fora do Barroco, uma releitura com ingenio daquilo que obtínhamos da Europa. Contudo, com o avançar das pesquisas, vemos que a geografia da cartomancia com o Lenormand é muito mais específica, muito mais localizada, muito melhor referenciada que supúnhamos. E isso nos abre portas para a experimentação e para uma conceituação muito mais precisa e efetiva. 
O que não pode nos fugir à vista é que estamos falando de um mesmo baralho com abordagens diferentes. Uma mesma estrutura que ganha - e perde - atributos de acordo com o ponto de vista do idealizador, sem perder em essência seus pontos fundamentais: o atributo e o significado chave. Uma vez de posse dessas referências, qualquer Petit Lenormand é um baralho familiar. A parte mágica disso é: cada um deles falará um pouco mais sobre determinado aspecto das cartas depreciado pelos demais. 
Sendo assim, utilizar ou não os Encantados em suas leituras dependerá mais de você que do baralho, ou de uma tradição específica para tal. Eu usei tais significados por anos, e fui muito feliz no uso, até encontrar minha raiz, meu foco na interpretação. Eu falarei um pouco mais sobre isso em breve, mas já deixo o questionamento aqui pontuado: o que faz de alguém um bom cartomante? Seu repertório de leituras ou sua fidelidade a um estilo ou abordagem? Sugiro a leitura do texto elucidativo de Chris Wolf sobre a aquisição do primeiro baralho.
Abraços a todos.

Em tempo: uma apresentação por Cris Mendonça, que entende MUITO do riscado. Um ponto de partida para que conversemos mais. Esteve conosco na II Mesa sobre as Cartas Ciganas, espero reencontrá-la na quarta.