quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Blogagem Coletiva: Você, seu Tarot e seus rituais


Há essa necessidade entre você e seu deck?
Você realiza algum tipo de ato que sacralize de alguma forma seus decks e suas leituras, ou nada disso é necessário quando se fala de Tarot?

Novamente, Pietra, Luciana e Nath surpreendem. Esse é um tema bastante polêmico na Arte, e ainda alvo de dubialidades. Afinal de contas, é necessário consagrar, ritualizar a posse de um baralho?



Particularmente, depende, para mim, do baralho, do caso, da intencionalidade e da funcionalidade do referido oráculo na minha prática, pessoal e profissional.
Eu possuo baralhos que foram consagrados de forma ritualística, com direito a velas, incensos, flores. Lembro-me, em especial, do meu segundo baralho, o Tarô dos Anjos, da autoria de Monica Buonfiglio. A autora propõe em seu livro todo um ritual de consagração, com orações de Salmos, montagem de altar e tudo. E lá fui eu, participando ativamente do espírito oferecido ao referido baralho.
Acho interessante isso. Quando adquirimos um maço de cartas, estamos tomando posse de algo que, paradoxalmente, já nos pertence. O ritual, nesse sentido, formaliza algo que já é inexorável ao evento. Ao ritualizarmos, confirmamos que aquele baralho não é mais um baralho de banca ou livraria, mas o único exemplar que possui reverberação e ressonância com um indivíduo específico - o portador. Para quem costuma ler o Tarot de forma mais lúdica, entre amigos, sugiro o seguinte experimento, psicométrico: feche os olhos, e deixe que um dos seus amigos lhe entregue um baralho ao acaso. Dificilmente você errará o dono correto, já que existe reverberação entre o dono e seu baralho. É parte do dono, ainda que à parte do dono.
Possuo baralhos que o próprio contexto da obtenção me eximiram de rituais de consagração. É o caso do meu Thoth. Eu o recebi de presente de um aluno e amigo, atualmente falecido. A inexorabilidade da morte consagrou meu baralho, pois não importa quantas versões deste baralho eu venha a ter, aquele, em especial, foi presente dele, parte dele que se tornou parte de mim. Assim como tenho casos de várias pessoas que ficaram com os espólios de amigos e familiares que, ou seguiram outro caminho (neste ou em outros planos) ou descobriram, de forma trágica ou natural, que seu caminho não era esse...



Outro baralho que tem lugar cativo entre os inexoravelmente meus é o baralho de Piquet que recebi de um amigo e ex-colega de república. Ele me enviou este baralho da França, onde morava - e o mesmo pertencera a sua avó. Tal correlação familiar teve todo um efeito no meu Caminho. Na carta que acompanhou o baralho, ele disse: "não sei qual é, mas sei que esse baralho tem história"... e me sinto hoje responsável por perpetrar a mesma neste caminho que trilhamos. inexorabilidade da posse e a inter-relação doador-recebedor faz com que o baralho tenha toda uma identidade própria, singular, sacralizadora.
Evidentemente, um dos meus baralhos mais queridos é o que minha avó me deu, e que utilizo para as (raras) leituras que faço com as cartas comuns. É impressionante como eu, ao manipulá-lo, sinto como se tivesse sete anos e estivesse no colo da minha avó, enquanto ela abria o leque e me ensinava a jogar - primeiro Buraco, depois a Ler. Combinações, sequências e leituras ainda se mesclam frente à minha mesa enquanto desnudo o porvir e me preparo para ele. Seja sincero, leitor: você acredita mesmo que eu precisaria consagrá-lo?
Isso não significa que eu seja contra o ritual ou não o pratique mais; recentemente, ganhei de presente de uma amiga querida o Tarot Egípcio Kier, para mim o melhor dentro dessa iconografia específica. O baralho possui toda uma história e uma funcionalidade dentro da literatura a ele relacionada - estou me referindo ao livro Cabala da Predición, em especial - que deve (e será) respeitada por mim. O livreto que acompanha o baralho sugere uma consagração específica. Por que não fazê-la? Por que não mergulhar na ideia do autor? Por que pular etapas, sendo que posso acompanhá-lo? No momento oportuno, farei a devida consagração, enquanto me apaixono diariamente por essa iconografia e acompanho as cores e formas dando imagem aos sonhos da Divindade.

Sol
Ancient Italian

E, para finalizar, falo sobre minha atual - e, possivelmente, por muitos anos mais - menina dos olhos: o Ancient Italian, meu presente de World Tarot Day.
Conheci esse baralho - as imagens, não seu nome - nas postagens da Claudia Boechat. Um baralho tão belo e tão representativo das imagens do Tarô de Marselha, meu favorito (até então...). Quando descobri seu nome, fiquei ansioso por tê-lo. E foi ele minha primeira aquisição da Lo Scarabeo. Sei eu que, quando abri a caixa e vi seu conteúdo, tive uma certeza que, com a experiência, tornou-se convicção: Podem tocar nesse baralho. Manipulá-lo. Embaralhá-lo. Até mesmo lê-lo. Ele é meu. Não no sentido egoísta da frase, mas no sentido mais elevado - não há o risco de "energias negativas" tomarem-no de mim. De o toque de uma pessoa fazer com que eu lhe perca a paixão. Ele é meu - e é simples assim. E, por ser simples, é belo e, desnecessário dizer, não é preciso consagrar aquilo que por natureza é sagrado.
Todavia, dormi com ele algumas noites debaixo do travesseiro. Custa nada dar um tom de ritual, não é? 
Abraços em todos.

3 comentários:

  1. Bonita postagem. Me fez pensar.
    Já li bastante sobre isso e achei tuas opiniões bastante interessantes.
    Já li sobre colocar uma toalha especial, flores, elementos como terra e água e até tentei, mas não me apeguei a nada disso.
    Para mim o ritual é bem simples, passar a minha energia para o baralho (segurando e embaralhando - é apartir daí que entramos em contato) e se concentrando bastante na questão, saindo ao máximo do plano físico, quase entrando no onírico...

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  2. Sabe Emanuel querido, as vezes penso que assumir as maravilhosas cartas do tarô como companheiras, mestras e amigas, gera uma gratidão que em si só já é uma consagração amorosa. Gratidão à elas e aos meus amigos, mestres e companheiros tarologistas.

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  3. Oi Juliana, é fato, estruturas ritualísticas podem ser criadas, mas não são efetivamente necessárias. Para se jogar Tarot, basta ter um baralho - outras vezes, nem isso (olha o caso do Vitor Akeda http://www.clubedotaro.com.br/site/galerias/Vitor.asp)
    O embaralhar, de fato, é o único rito que vejo como fundamental.
    Edy, minha bem amada amiga, teu presente é algo que me desafia todos os dias. Cá estou eu pensando em como lidar com ele. Ele é poderoso, sim ele é! E sim, só nos dá gratidão viver com elas!

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